terça-feira, 30 de agosto de 2016

Corações Indomáveis (UltraSeven Fanfic): 12 - O assassinato do homem de Hokkaido – Parte 1


Olá galerinha super linda maravilhosa do Planet Satsus! Espero que estejam todos bem e que tenham sentido falta de Corações Indomáveis, que eu finalmente volto a postar após um jejum que até eu estava achando longo demais, mas que aconteceu por motivos de que eu transito ente um monte de escritos diferentes.

    No episódio anterior: Após o término do arco de história envolvendo tráfico humano e descobertas por parte de Amagi, Dan se vê desejoso de tirar um descanso, mesmo que curto, da terrível história que presenciou. E Olga Gorisaki toma uma decisão que pode mudar para sempre o rumo de sua vida.

   Agora, aproveitem o atual capítulo, 12...



   Dan e Anne tinham escolhido a região de Hokkaido como destino após saberem que os hotéis em Okinawa estavam lotados. O voo nada tinha demorado a chegar ao local. A pousada onde ficariam era excelente. Já tinham até mesmo um primeiro passeio planejado para aquela tarde. Estavam prontos para viver um fim de semana repleto de felicidade.

    Pelo menos até saírem para uma volta de barco. Mal havia terminado a primeira volta quando um corpo quase totalmente mutilado apareceu na praia. Anne agarrou-se a Dan, muito assustada: - Quem poderia ter feito uma barbaridade dessas?!

    - Não tenho ideia, mas definitivamente isso não é um assassinato comum. Ainda não há reporte de autópsia porque recém vão recolher o cadáver, mas de uma coisa já estou certo: ele foi atacado por um tubarão ou algo parecido. As lacerações são feias demais para terem sido feitas por uma arma branca comum – disse ele baixinho.

   - Dan, deixe isso com a polícia, nós temos nosso final de semana para viver – disse ela tentando aparentar indiferença, mas aquela brutalidade era demais para seu pobre coração.

   - Eu sei que você pensa o contrário – sorriu ele para depois acarinhar seu cabelo algo triste: - De fato, porém, teremos que deixar porque esse caso não é da nossa alçada.

    Os dois, mesmo querendo focar no passeio, observaram atentamente a cena que veio a seguir.

    Uma viatura do departamento médico legal ali chegara após vários minutos. Nesse meio tempo, incontáveis curiosos observavam peritos e policiais trabalhando na cena. Dan, com sua apurada visão de alien, logo teve a certeza de uma coisa: aquela morte não ocorrera em circunstâncias normais. E provavelmente, tão apenas isso, o assassino não era humano. Por que então aquele homem morrera? O que fizera de tão errado, ou quem sabe certo, para merecer uma morte tão horrenda? Queria aproveitar sua folga com Anne, mas não conseguia desprender sua mente daquele homicídio. Quem sabe a polícia encontraria logo uma solução. Quiçá não.

     Horas depois, quando o casal, apesar dos pesares, tinha tido um dia relativamente normal após aquele triste interlúdio, viram um convite destinado a eles na porta do dormitório. Uma festa na noite seguinte os esperava. Dan, no entanto, estava surpreso com o fato deles estarem referidos como membros do Esquadrão Ultra...

   - Como alguém saberia quem nós somos quando chegamos aqui não faz sequer um dia?

   - Eu não sei, mas pelo jeito o dono da festa tem muito dinheiro apesar de que esse nome não é familiar. Ainda mais porque não é comum ver empresários estrangeiros aqui, especialmente italianos – Anne dizia enquanto olhava o convite, um tipo vip, onde dizia o nome “Constantino Nicosia – Cremes dentais, próteses dentárias e aparelhos ortodônticos”.

   - Nunca ouvi falar dele, sendo franco – disse Dan de repente sentindo um estranho e inexplicável mal estar.

   - Acho que deve ser porque o trabalho dele é restrito à Europa ou às regiões próximas do Mediterrâneo – disse ela largando o convite. Afinal, eles só teriam dois dias antes de voltarem à Tóquio e ao esquadrão.

    Foi quando o telefone do quarto tocou. Dan atendeu quando notou sua namorada indo ao banho: - Dan Moroboshi. Com quem deseja falar?

   - Tem uma pessoa querendo falar com o senhor ou sua namorada. Posso transferir a ligação? – perguntou o recepcionista da pousada.

   - Quem é? – Moroboshi estranhou alguém ligar àquela hora.

   - Ele diz que mandou um convite para o senhor e ligou para saber se você o recebeu – a resposta do homem deixou Dan espantado. No fim, o espanto cessou. Se ele tinha enviado o convite, ligar não seria problema.

   - Tudo bem, falarei com ele – respondeu o alien educadamente para apenas três minutos depois ouvir um claro sotaque itálico no meio do japonês: - Signore Dan Moroboshi?

   - Eu mesmo. Senhor Constantino Nicosia*? – perguntou ele vendo que a voz era bem masculina.

   - Affermativo. Imagino que recebeu meu convite – respondeu o outro sorrindo enquanto recebia um bombom na boca de uma mulher.

   - Recebi, mas gostaria muito de saber como você sabe sobre nós. Eu não me lembro de ter avisado a alguém que eu viria para cá – Dan disse com delicadeza.

   - Essa é uma cidade não muito grande, então é fácil descobrir as coisas. Ainda mais quando você ficou famoso em várias partes do mundo por tê-lo salvo em 1968. A Itália muito te deve. O governo só não mandou um oficial para la Scuadra Ultra perché a situação lá ainda está muito precária – respondeu Nicosia com uma pontinha de tristeza.

   - Imagino. O Capitão Kiriyama me falou disso. Sobre o convite, eu aceito – Dan respondeu educado, mas confessou a si mesmo não entender o motivo de estar aceitando ir a uma festa comandada por um desconhecido. Talvez alguma coisa naquela comemoração ou no anfitrião o atraísse. No entanto, um alarme dentro dele dizia-lhe para ter cuidado. Com o que? Seven não sabia dizer.

   - Grazie, signore Moroboshi. Fico muito honrado em saber disso – respondeu ele para em seguida avisar que tinha de desligar, pois estava ocupado.

    Pelos risinhos do outro lado da linha, Dan logo soube qual era a ocupação na qual ele estava. Riu levemente e despediu-se. No entanto, a sensação ruim de antes voltou com força quando se viu sozinho no quarto. Não entendia qual a razão daquele alarme tocando em sua mente. E menos ainda compreendia o porquê de ter aceitado aquele convite. Anne decerto não ficaria nada feliz em saber que ele tinha feito isso sem consultá-la.

   - Obrigada por chamá-lo. Minha cidade teria ido pelos ares se não fosse ele – uma mulher colocava outro bombom na boca de Constantino.

   - Mia bella Delia, por você eu faço tutto, tutto mesmo - respondeu Nicosia puxando-a contra si para um beijo.

    Ela retribuiu com vontade. As mãos procuraram o laço do roupão dele, que não pensou duas vezes em auxiliá-la.

    Na pousada, Anne não exatamente estava brigando, mas estava bem brava com Dan: - Você...? Não acredito! Nós temos que voltar ao Esquadrão na manhã seguinte! Por acaso esqueceu que nosso voo de volta está marcado para às oito e meia?!

   - Não sei o que me deu. Eu simplesmente não pensei – o alien ainda não entendia o motivo de ter aceitado ir à festa de um desconhecido estrangeiro.

   - E agora, o que fazemos? Não tenho um vestido adequado e muito menos podemos simplesmente ligar de volta e recusar. Até pra mim isso seria rude demais. Só que vamos ter de sair cedo se quisermos estar acordados para pegar o avião de volta – Anne Yuri nunca esquecia a excelente educação recebida da mãe de criação.

   - Por mim, tudo ótimo nesse caso – disse ele como se pedisse desculpas.

   - Bem, não é como se alguma vez você tivesse ido a uma festa de verdade, é? – Anne de repente riu percebendo outra coisa que ele jamais fizera.

   - Nunca fui mesmo. Em M-78 isso não é comum – Dan olhou-a sorrindo, mas no fundo, pensava mais no que veria na confraternização do que propriamente nela. Afinal, uma festa era composta de gente. E dependendo de quem nela estava, tudo podia acontecer.

   - Festas de ricos definitivamente são outra coisa. Pelo menos até onde a nona Angelina me falou delas. Acho que por isso nunca quis ir mesmo tendo recebido vários convites enquanto estudava para membro do Esquadrão – a jovem sentou-se no colo de Dan querendo carinho.

   - Prometo que vou me comportar bem. Agora deixa eu te beijar – sorriu ele puxando-a para junto dele. Ah, beijar era tão bom, pensou Seven acarinhando-a e desfrutando de seus lábios sem mais pensar no mal estar inexplicável.

    No dia seguinte, após uma deliciosa noite de amor, Dan e Anne despertaram com o telefone do quarto tocando. Mais ela do que ele, mal se aguentando de sono, pelo menos naquele minuto. A oficial atendeu: - Bom dia?

   - Um Capitão Kiriyama quer falar com a senhorita ou seu namorado. Posso passar a ligação? – perguntou o homem da recepção.

   - Claro, pode – respondeu Anne com certo receio. Por qual razão o capitão estaria ligando para eles em pleno domingo?

   - Anne, sou eu, o capitão. Como está? – Kaoru parecia muito apreensivo ao telefone.

   - Estou bem, mas, é estranho o senhor ligar hoje tão cedo. Nós voltamos só amanhã pela manhã. Aconteceu alguma coisa? O senhor não parece bem – Yuri percebera a apreensão na voz dele.

   - De fato, não estou. Aconteceu uma tragédia. Perdi um velho amigo assassinado em Hokkaido. Acabaram de me ligar para dizer que o corpo dele foi encontrado em uma praia. Por uma triste coincidência, exatamente onde vocês estão. Não devia fazer um pedido desses, mas preciso porque não tenho como ir até aí ajudar a polícia. Estou enviando uma carta com tudo o que sei sobre ele, mas para ajudar na investigação, terá de ser vocês dois – disse Kiriyama entristecido.

    Anne contou, após suspirar, como ambos tinham visto o corpo enquanto passeavam de barco. E embora estivesse desejosa de esquecer aquilo e deixar nas mãos da polícia, não podia. Era difícil demais. O capitão disse-lhe: - Pelo jeito como ele morreu, acho que ele estava fazendo alguma coisa que deixou o criminoso apreensivo. Não sei exatamente o que pode ter sido, mas de uma coisa estou certo: envolvia investigar algo.

   - Por que pensa isso? – a oficial perguntou enquanto Dan enfim despertava completamente.

   - Quando ele deixou o Esquadrão Ultra, em 1964, houve pelo menos alguns casos que ficaram sem solução. Todos, exceto um, foram resolvidos com o tempo. Essa exceção foi o que sempre perturbou o pobre Ichimonji – o capitão disse como se precisasse urgentemente falar.

   - O senhor pode falar? – perguntou ela e Dan estava colado nela ouvindo a conversa.

   - Foi uma série de mortes misteriosas que ocorreram por volta dos anos cinquenta. As vítimas apareciam mortas depois de terem sua energia vital completamente drenada, pelo menos segundo as autópsias. E os corpos sempre tinham uma pequena incisão de agulha na nuca, mas a polícia nunca soube explicar o motivo disso e nem nós. Ninguém jamais soube o que causou isso e menos ainda as vítimas possuíam algum tipo de ligação embora elas morassem todas na mesma vizinhança – disse Kaoru pensativo.

   - Uma doença, talvez? – Anne pensava sobre o que ouvia.

   - Não. Um ink – disse Dan temeroso. E totalmente desperto após ouvir aquilo.

   - Como assim? – a jovem olhou-o.

   - A única criatura que conheço capaz de fazer isso é um ink. Eles, quando provocados ou furiosos, são perigosos. Geralmente se alimentam de energia vital, mas não tem hábito de matar, exceto quando desesperados ou enfurecidos. Claro que há aqueles que são malignos e matam porque gostam, mas são bem poucos – disse Dan ao que Anne falou para Kaoru, que suspirou: - Se algum Ultra tivesse chegado aqui anos antes, talvez soubéssemos a verdade. Se bem que as palavras dele são apenas possibilidade. Afinal, não trabalhei nesse caso na época, então não tenho como saber.

   - Pela descrição que o senhor deu e pelo modo como o Dan falou, talvez seja a resposta, mas não há como realmente saber por que sequer sabemos qual foi o reporte da autópsia do cadáver do senhor Ichimonji e muito menos que rumo o caso tomou até o momento – suspirou a jovem enquanto Seven pensava em como diabos um ink tinha vindo para a Terra. Não que eles não fossem tecnologicamente avançados, mas os humanos não eram fonte boa o suficiente de alimento e muito menos eles eram chegados em longas viagens.

   - Esse vai ser o trabalho de vocês pelos próximos dias. Provavelmente ambos tenham que passar quase um mês em Hokkaido. Caso perguntem sobre mais roupas, estou mandando o Amagi em um avião para levar as coisas de que vão precisar aí, incluindo as diárias da pousada e as credenciais de ambos – disse Kiriyama seriamente desejando que a investigação fosse rápida. Sabia ele, porém, que as coisas não seriam fáceis. Ainda mais depois que ouvira a teoria de Dan. Se perguntou se a intervenção de Seven seria necessária.

   - Tudo bem. Faremos nosso trabalho – disse Anne soando profundamente profissional, mas no fundo estava um bocado feliz, pois teria mais tempo a sós com o amado.

    Dan concordou ao que a jovem passou a mensagem para o capitão, que sorriu tendo a certeza de que tudo dentro em breve se resolveria.

    Um minuto depois, após saberem que Amagi chegaria dali pelo menos uma hora e meia no heliporto de um hotel, despediram-se de Kiriyama. Vestiram-se e desceram para o café da manhã, quando viram um entregador chegando com duas caixas: - Dan Moroboshi e Anne Yuri?

   - Somos nós – respondeu Seven com educação.

   - Pediram que eu entregasse isso para vocês. Dona Delia fez questão de enviar trajes de gala para a festa de hoje à noite – disse o rapaz se aproximando com as encomendas.

   - Quem é essa senhora? – perguntou Anne surpresa.

   - Esposa do senhor Nicosia, o empresário que está vivendo aqui temporariamente para mostrar o funcionamento da empresa aos funcionários da filial japonesa – respondeu o entregador para o espanto do casal.

   - Nossa – Anne não soube bem o que dizer sobre o que tinha ouvido. Ainda mais agora sabendo que ele morava ali, mesmo que temporariamente.

   - Diga a ela que agradecemos a gentileza – Dan sorriu por fim e a jovem acabou por segui-lo.

    O rapaz agradeceu de volta e o alien deu uma gorjeta como demonstração de apreciação pelo trabalho dele.

    O casal tratou de tomar o café da manhã, pois realmente tinham fome. Meia hora depois, tinham voltado para o dormitório. Abriram as caixas, ficando espantados e maravilhados com seu conteúdo. Dan recebera um belo smoking e Anne, um lindo vestido cor de pérola com leves rajados em preto nos ombros e cintura. Um bilhete os fez rir levemente: “Caso as medidas estejam erradas, procurem o endereço no cartão. Atenciosamente, Delia Nicosia.”

    Ambos experimentaram. Dan achara a roupa apertada na região do pescoço, tanto que o botão mal fechava. Anne achou o vestido justo demais nos quadris, atrapalhando a locomoção. Disse: - Bem, parece que temos de trocar.

   - Podemos aproveitar e conhecer melhor esse lugar. Porque teremos pelo menos um mês por aqui e claro, temos uma investigação a fazer – disse Seven achando Anne muito sexy naquele vestido.

   - Conheço esse olhar no seu rosto, Dan – riu ela baixando o zíper da roupa.

   - As mulheres terráqueas são tão precisas que me dá medo – gargalhou ele para depois calar-se e contemplar as costas nuas da amada, que se viu sorrindo e pensando: - Danadinho.

    Uma hora depois, ambos sentiam-se um tanto deslocados na loja indicada no cartão que viera com as caixas. O local claramente era destinado a quem podia pagar somas altas. Dan, no entanto, conseguira tomar coragem para falar com a atendente sobre trocar um par de roupas de gala que não caíra tão bem. A jovem olhou os trajes e disse:

   - Permita-me chamar a modista para tirar as medidas de ambos e arrumar os trajes. Não é difícil. Reiko é excelente no que faz.

   - A festa é hoje à noite – disse Anne um tanto apreensiva.

   - Nós sabemos. Dona Delia nos disse que os convidou, razão pela qual encomendou os trajes. Só que ela baseou-se no que sabia sobre os corpos japoneses por fotos. Se bem que essas roupas só precisam de alguns ajustes que não demoram sequer três horas. Só preciso que os dois se posicionem para que eu possa tirar as medidas – sorriu a moça.

    Os dois se colocaram no lugar indicado pela atendente. A modista, uma mulher madura que usava um par de óculos bem destacado, usou a fita métrica para precisar os corpos de ambos em todos os aspectos para que os trajes pudessem ser devidamente arrumados. Pois daqueles só existia uma única versão.

    Como o tempo de espera seria longo, trataram de voltar ao local onde o cadáver do senhor Ichimonji tinha sido encontrado. Quem sabe uma melhor vista podia dar informações que passaram despercebidas aos olhos da polícia. E também tinham de esperar Amagi chegar com as bagagens que eles não tinham trazido, pois apenas dois dias não exigia muita coisa. A situação, porém, tinha dado uma guinada inesperada.

   - À primeira vista, não parece ter muita coisa nova que possamos encontrar. Se bem que estranhei uma coisa agora que penso nela: por que não havia sangue onde teoricamente deveria ter? – Anne, já recuperada do choque inicial de encontrar um cadáver em plena praia, conseguia raciocinar melhor.

   - Quanto a isso, não posso precisar muito. A única maneira de eu saber algo efetivo é vendo o cadáver. Seria uma boa ideia se fôssemos à polícia nos anunciar como membros do Ultra Keibi-Tai – respondeu Dan olhando atentamente o local, não querendo permitir que nada escapasse de sua visão.

   - Nossas credenciais ficaram em Tóquio quando partimos. Não tem como nos anunciarmos até o Amagi trazê-las. Além disso, acho que, embora o corpo tenha sido encontrado aqui, o crime aconteceu em outro lugar – disse ela pensativa.

   - Pelo que você comentou antes, me pareceu óbvio. Mais do que isso, porém, só vamos saber com uma investigação mais profunda. Preferencialmente começando pelo corpo do senhor Ichimonji seguido pelos últimos passos dele antes do crime – respondeu Dan indicando que Anne o seguisse para darem uma volta pela praia, pois o dia estava bonito e tinham que passar tempo antes de encontrarem Amagi.

    Foi quando, ao andarem pela extensão de areia, *ouviram um canto em outro idioma seguido de alguém saindo da água. Um homem alto e algo magro em traje de banho escuro sacudindo os cabelos negros molhados e colocando no chão o que pareciam ser conchas*. Sorriu: - Não é exatamente comum ver gente na praia em roupas normais.

   - Estamos dando uma volta antes de irmos ao encontro de um amigo – Dan respondeu observando a insólita cena e perguntando: - Você é de outro país, não é?

   - Pela música e pela pronúncia, ele é italiano – Anne respondeu antes que o outro pudesse dizer algo e logo disse:

   - Talvez ele seja o senhor Nicosia.

   - Como sabia? – riu ele maravilhado com a precisão dela. E com ela. “Che bella ragazza”, pensou ele sorrindo.

   - Hokkaido não é uma região onde se encontram muitos gaijins, ainda mais da Itália – respondeu Anne tentando esconder que estava bem impressionada com como ele era bonito.

   - Minha estadia aqui é só temporária. Até a empresa estar estabelecida e os funcionários adaptados com o ritmo dela – respondeu Nicosia para em seguida perguntar: - Você fala italiano ou algo parecido?

   - Estudamos os mais variados idiomas enquanto estamos treinando para membros do Esquadrão Ultra – respondeu ela com uma meia verdade. Ninguém precisava saber que ela era uma órfã criada por uma nona italiana.

   - Não muito diferente da sede em Roma – disse ele para depois dirigir-se a Dan: - Fico feliz em saber que nos veremos hoje à noite. Espero que aprecie a festa em minha casa.

   - Certamente vamos – respondeu Seven sentindo o mal estar de antes voltando, mas notando que não era causado pela presença do homem em traje de banho. Qual era a verdade, então? Nada havia nele que mostrasse algo estranho.

   - Desculpem, mas tenho que ir. Experimentar meu traje e aproveitar o resto do domingo antes da festa – disse ele para logo despedir-se em japonês, ao que foi respondido pelos dois, sorrindo ao acenar-lhe.

    Pelo menos uma hora e alguns minutos depois, Dan e Anne estavam no hotel em cujo heliporto Amagi desembarcaria com o avião. O gerente ali estava para averiguar se nada estaria errado com o veículo aéreo e cuidar para que o mesmo não atrapalhasse o heliporto. No final das contas, o estrategista chegou. Desembarcou trazendo consigo as malas dos dois e as credenciais em uma caixa separada. Cumprimentou-os e disse em seguida: - Adoraria poder ficar para ajudá-los, mas não tenho como. Desejo uma boa estadia a ambos.

   - Também adoraríamos que ficasse, mas você tem suas obrigações na capital e no momento, nosso trabalho é aqui – disse Anne suspirando.

   - O capitão contou que Jun Ichimonji era amigo dele desde ambos serem jovens. Está sendo duro pra ele lidar com isso. Eu consigo imaginar como é. Já perdi pessoas importantes – Amagi respondeu com certa tristeza ao que foi consolado por Dan: - Não sei se serve de consolo, mas acho que há um lugar melhor para quem parte desse mundo. Se viveu bem, pelo menos foi em paz.

   - Nem todo mundo parte em paz. Ou porque não teve tempo de viver ou porque não realizou o que queria – Anne se viu pensando nas conversas que ouvia pelos corredores do Esquadrão Ultra.

   - Eu não sei se acredito muito na primeira parte sobre os motivos – Seven olhou para a namorada pensando que a vida era como a chama de uma vela: um sopro e apagava-se.

   - É um dia lindo demais pra se ficar triste. Além do mais, a alma do senhor Ichimonji está em paz sabendo que vocês e a polícia encontrarão o assassino – Amagi disse determinado.

   - Daremos nosso melhor – respondeu Anne mais alegre.

   - Faremos justiça por ele – Dan estava disposto a qualquer negócio para trazer o criminoso à luz.

    Finalmente eles despediram-se. O estrategista partiu de volta para a capital. O casal resolveu-se a voltar para a pousada e desarrumar o resto das malas, que foram carregadas até o ponto de táxi por um rapaz de uniforme.

    Já no dormitório que ocupavam, Anne e Dan puseram os uniformes do Esquadrão Ultra e colocam suas credenciais nos bolsos. Iriam apresentar-se à polícia ainda naquele dia, pois quanto mais rápido investigassem, melhores seriam os resultados. Para lá foram, apresentaram seus distintivos e encontraram o chefe de polícia, Jin Ohta, já à espera deles:

   - Bom dia para ambos. O gerente do hotel me ligou avisando que ambos provavelmente viriam ainda pela manhã. E o capitão de vocês avisou da ajuda que enviaria. Sejam bem vindos.

   - Obrigada, chefe. Estamos honrados em ajudar nas investigações – Dan curvou-se respeitosamente e Anne fez o mesmo, acabando por reparar em um convite idêntico ao que eles tinham...

   - Não quero ser invasiva de cara, mas, o senhor vai à festa do senhor Nicosia?

   - Autoridades como eu e civis endinheirados receberam esse convite. Não faz muito que ele chegou por aqui. Mas já está causando uma polêmica daquelas. Não que eu ligue muito, afinal, a vida é dele – respondeu Jin aos risos.

   - O que o senhor quer dizer? – Seven viu-se curioso, pois “polêmica” era uma palavra desconhecida para ele.

   - Vamos colocar desse modo: a senhora Delia e o marido, Constantino, são um casal bastante... Como eu digo? Aliás, muitíssimo fogoso. Os vizinhos e transeuntes se espantam com como eles se beijam e se abraçam porque por aqui não é comum os casais serem tão publicamente afetivos. Bem, eles não são exatamente japoneses, então não posso culpá-los – respondeu Ohta sorrindo e depois dizendo: - O amor é lindo, não devia ficar escondido.

   - É verdade, mas não adianta mostrar em público se não for de verdade – disse Anne olhando séria.

   - Não seja rude – disse Dan como se a repreendesse.

   - Estou mentindo? – replicou ela encarando-o.

   - Você não está mentindo, senhorita, mas acho que há mesmo amor entre eles. Embora eu tenha ouvido uns rumores de que o casamento deles foi meio aos tropeços inicialmente, mas, que relação não tem seus problemas, não é mesmo? – Jin sorriu, mas logo voltou a ficar sério: - Trocando de volta ao assunto que de fato os trouxe aqui: o que pretendem primeiro?

   - Gostaríamos de ver o corpo e saber mais sobre a vítima, preferencialmente o que vocês já têm sobre isso – respondeu Dan de modo profissional.

    Ohta logo pegou a caixa onde as evidências até agora recolhidas do caso estavam sendo mantidas para consulta.

    Dan descobriu que Jun Ichimonji era pelo menos cinco anos mais velho que Kiriyama. Morava em Hokkaido não fazia um ano na ocasião do crime. No momento, era detetive particular embora não estivesse nos seus melhores dias como tal, pois o trabalho estava um tanto escasso. No entanto, a perícia na casa da vítima resultou que uma pasta específica tinha desaparecido das prateleiras do escritório. O conteúdo só seria conhecido se ela fosse encontrada. Além de uma agenda onde estava escrito um encontro marcado para a noite anterior, com um homem chamado C. N.. Tal fato fez Moroboshi seriamente pensar na possibilidade do arquivo desaparecido tratar do caso não resolvido do qual o capitão tinha comentado no telefone. E os depoimentos de vizinhos e conhecidos não disseram muita coisa, exceto que ele não era muito dado a socializar e constantemente estava sem dinheiro.

    Olhou o chefe de polícia e disse: - O crime não aconteceu na praia, não é?

   - Como você adivinhou, não tenho ideia, mas está certo. O corpo foi desovado ali. Pelo que sabemos através do reporte da autópsia, o homicídio aconteceu na noite anterior embora não tenhamos conseguido especificar a hora. A arma ainda não foi identificada porque as lacerações são muito diferentes de qualquer coisa com que já lidamos. Aquela parte onde o corpo foi achado não nos disse muita coisa, exceto o óbvio: ele foi descartado ali com a provável intenção de evitar que ele fosse encontrado. Só que a maré o trouxe de volta – Ohta respondeu com a mão no queixo.

   - O que possivelmente significa que o assassino tinha motivos fortes para matá-lo. O problema, porém, começa aí: quem teria motivos para matar um homem que não tinha sequer doze meses vivendo aqui? Um antigo inimigo, talvez? – Anne sentou-se em uma cadeira perto da mesa do chefe.

   - Caso o senhor queira saber, chefe Ohta, eu e Anne estávamos aproveitando nossa então folga de dois dias em um passeio de barco quando avistamos o corpo na praia. Por isso pude adivinhar alguns poucos detalhes, mas para saber mais a única maneira é examinarmos o corpo. Com o conhecimento que tenho, talvez eu possa identificar a arma do crime – Dan disse com profissionalismo embora escondesse a custo sua ansiedade. O mal estar anterior tinha voltado.

   - O capitão me falou da sua... condição tão única. Confesso que não esperava sua volta à Terra. Mesmo com tudo o que viu aqui, ainda quis voltar? Você é corajoso – disse Jin meio entristecido. Tinha mais anos de polícia do que podia contar, por isso sabia o quão longe a humanidade podia ir quando a coisa era fazer maldades. Porque nem todas eram puníveis com prisão embora fossem igualmente odiosas.

   - Tive um motivo especial – respondeu Seven sorrindo a olhar para Anne.

    Jin Ohta viu-se obrigado a segurar as lágrimas, pois naquele momento conversavam sobre uma investigação. No entanto, comoveu-se com o amor dele por ela. Era estranho pensar que aquele sentimento de quatro letras assumia tantas formas distintas. Contudo, nenhum relacionamento era isento de problemas ou desafios. Uns maiores, outros menores, mas igualmente causadores de polêmica entre o casal que passava por tal coisa.

   - Sorte sua ter um motivo realmente válido – respondeu ele por fim e perguntou em seguida: - Eu sei que não vai ser uma pergunta agradável, mas: querem ver o corpo?

   - Se temos que investigar o crime, temos de olhar cada pista com cuidado redobrado. Qualquer aspecto pode resolver isso – disse Anne ficando em pé novamente.

   - Ou talvez eu tenha que lutar com o possível assassino – pensou Dan agoniado com a situação. Seriamente desejava que o homicida fosse apenas alguém cruel o suficiente, mas humano.

    Afinal, puderam ver o cadáver de Jun Ichimonji. Dan apavorou-se de tal forma que se viu segurando a mesa como se não quisesse cair. Ohta olhou-o espantado: - Você... descobriu algo?

   - Eu tinha razão sobre a minha teoria. Um ink o matou. Com que objetivo, eu ainda não sei. Estamos procurando uma criatura que inesperadamente tornou-se perigosa demais – respondeu ele sem muita clareza. Seu conhecimento sobre aquilo vinha do treinamento feito a mais anos do que ele podia contar.

   - Uma criatura alienígena fez isso? Como pode estar tão certo dessa possibilidade? – Jin olhou-o sem ter certeza sobre crer naquilo ou não.

   - Essas lacerações profundas, quase despedaçando ele, além do posicionamento vertical, são feitas pelas garras de um ink. Eles costumam usá-las como instrumento de defesa quando são atacados de alguma forma. Das duas uma: ou o senhor Ichimonji tentou atacá-lo com um chuço de ferro ou o assassino pegou-o desprevenido. O detalhe é: esse encontro da noite anterior era com quem e por quê? – Moroboshi questionou-se passando a mão pelos cabelos.

   - Lendo essa agenda, acho que C. N. quer dizer “Constantino Nicosia”. Tenho a sensação de que ele pode ser a pessoa capaz de nos dar as respostas – disse Anne de repente.

   - Você acha? – Ohta perguntou surpreso.

   - Considerando o número anotado aqui, ele bate exatamente com o cartão que a esposa dele, Delia, enviou junto com um par de trajes de gala encomendados para nós dois. Se não for isso, então não sei – respondeu ela de imediato.

    Dan olhou com atenção o número e logo disse: - Deus, Anne está certa! Parece que o senhor Nicosia é de fato a pessoa. Ou talvez algum empregado da fábrica ou criado da casa dele tenha iniciais iguais, mas isso nós saberemos se perguntarmos a ele.

   - O que exatamente ele, que até aqui é uma probabilidade, ou a vítima queriam se encontrando? E também, essa informação é nova, dado que não faz sequer dois meses que eles vivem aqui. Até queríamos encontrar quem era o dono das iniciais e do número na agenda, mas primeiro tínhamos que descobrir a causa da morte e alguns outros detalhes, assim iríamos diminuir o número de suspeitos. E não ajuda que meu pessoal é reduzido em efetivos porque essa cidade é pequena – disse Ohta desgostoso.

   - Mas imagino que seu desgosto é porque estão te cobrando resultados imediatos, não é? – perguntou Anne lembrando-se de como funcionava o sistema judiciário.

   - Infelizmente sim. Porque sei de cor e salteado como funciona o sistema de julgamento e Deus sabe o quanto acho isso absurdo mesmo sendo da polícia. Não quero cometer um erro do qual eu vá acabar arrependido pelo resto da vida – respondeu Jin observando o corpo.

   - O problema é que não estamos lidando com um assassino humano comum. E sim com um alienígena que se tornou excessivamente perigoso por mais que eu odeie colocar desse modo – Dan suspirou tristemente.

   - Eu imagino, mas, temos que descobrir o que realmente motivou esse homicídio. Quem garante que esse ink realmente agiu assim por maldade? Será que o senhor Ichimonji era realmente um santo? Olha, sei que estou soando estranho, mas temos que investigar todas as possibilidades. Se deixarmos passar alguma coisa, a verdade nunca virá à tona – Ohta olhou seriamente os oficiais do Esquadrão Ultra.

   - Considerando o que o Dan me falou sobre os inks enquanto vínhamos, eles não têm hábito de matar ou viajar longas distâncias, o que nos leva a pelo menos algumas perguntas: como ele ou ela veio parar na Terra? Que razão levou-o a fazer isso? Seria esse crime relacionado ao caso que o capitão Kiriyama comentou conosco no telefone? Isso se considerarmos tudo o que ele disse – Anne cruzou os braços com expressão de quem tentava ligar todos os pontos.

   - E que provável relação o senhor Nicosia tem com isso? Ou será apenas um acaso fortuito o nome dele ter aparecido na nossa investigação? – Jin estava pensativo.

   - Pra não causarmos um alarde em cima disso, é melhor irmos à festa e lá levarmos o senhor Nicosia e a esposa dele para uma conversa particular. Sei que festa não é exatamente momento de fazer isso, mas vai Deus saber se ele não é arisco quando se trata de autoridades – a oficial olhou-os.

   - Realmente, é uma possibilidade a ser considerada. Portanto, temos compromisso essa noite, senhor Ohta – sorriu Seven.

   - Ainda bem que tenho um smoking quase novo que só usei uma vez, em um baile de caridade. Dado pelo meu senpai – respondeu o chefe lembrando-se do quão era difícil arrumar tempo para se divertir.

   - Estamos combinados então – Anne sorriu educadamente.

    O casal, após combinar algumas outras coisas com Jin Ohta, dele despediram-se. Saíram da chefatura de polícia e foram diretamente para a loja onde tinham de buscar os trajes. Seriamente pensaram em perguntar à Reiko sobre Jun Ichimoniji. Pois apesar dele não frequentar aquele local, era possível que a modista já o tivesse visto ou até mesmo falado com ele. Encontram-na fazendo ajustes no traje feminino, pois o masculino só precisara mesmo de uma arrumação na gola.

   - Senhora? Podemos perguntar se você conhecia Jun Ichimonji? – Anne perguntou logo que a modista apareceu.

   - O homem que apareceu morto na praia? Não exatamente o conhecia, mas o vi passar por aqui algumas vezes. Não era raro ele fazer um monte de perguntas sobre se tinham visto uma pessoa estranha aqui próximo, como ela era, o que fazia. Francamente, não sabia qual era a dele fazendo isso, sinceramente – Reiko ajeitou os óculos sobre o nariz.

   - O que pode nos dizer sobre Constantino e Delia Nicosia? – Dan achou seriamente uma boa ideia saber em que terreno pisaria.

   - Faz apenas sessenta dias que se mudaram, mas já deu pra notar que eles são notavelmente afetuosos. Parecem ser boas pessoas, exceto que os vizinhos se incomodam seriamente com algumas atitudes livres demais deles. Especialmente a mulher dele tomando sol na piscina de topless ou regando as plantas só de calcinha e regata e atraindo todos os olhares masculinos possíveis, especialmente dos meninos púberes com os hormônios à flor da pele. Ou o Nicosia colocando roupas no varal só de cueca – Reiko respondeu rindo e depois disse: - Queria eu ter o corpo daquela mulher.

   - Você tá dizendo que ela anda... seminua pelo jardim da casa dela? E ele não tem vergonha de andar só de roupas de baixo? – a voz de Anne saía às sílabas tamanho o espanto.

   - Já ouvi alguns dizendo que ela anda até pelada. Isso numa casa com uma cerca, ou muro, que mal chega a um metro de altura. Até mesmo dizem que eles se agarram e se beijam sem qualquer vergonha pra quem quiser assistir. E que o marido dela adora isso. Umas línguas piores dizem que ele até fotografa ela nua – a modista deixou Anne Yuri vermelha de vergonha e Dan não muito se espantou com aquilo, já que nudez era a coisa mais normal do mundo: - A casa é deles, até onde eu sei. Não vejo nada estranho nisso.

   - Queridinho, acho que você não entendeu ou você é meio fora da casinha mesmo... – ela disse olhando-o e rindo para depois completar: - Mas não é de beijo e carinho comum. Eu tô falando é de sexo. E no caso, bem explícito.

    Anne Yuri ficou tão vermelha que quem a visse podia confundi-la com um tomate, um pimentão ou uma pimenta. Ela fazia amor com Dan e até gostava de mostrar o corpo em roupas modernas e de banho, mas aquilo era demais:

   - Essa Delia não conhece a palavra “vergonha”? Ou até “pudor”? Desculpa dona Reiko, mas isso ultrapassa todos os limites aceitáveis.

   - Vou ser sincera com você, lindinha: se cada um cuidasse da própria vida e tentasse vivê-la sem se preocupar com a opinião alheia, o mundo seria muito mais fácil de viver e conviver – respondeu Reiko séria, mas depois sorrindo: - Eu quisera ter um marido como aquele dela, viu? Que me enchesse de beijos e carinhos e me desejasse tanto assim.

   - Eu não discordo da senhora, mas, os vizinhos não são obrigados a ver esse tipo de cena. Imagina uma criança passando ali enquanto eles estão... namorando? Algum dos vizinhos chegou a falar com eles? – perguntou Anne enquanto Dan se perguntava o quanto de verdade havia naqueles boatos.

   - A única que realmente reclamou foi uma velhinha que vive duas casas à direita. Ela ficou pelo menos um bom tempo tagarelando com a dona Delia dizendo que os hábitos libertinos dos dois eram imorais. Bastou, porém, aparecer, o Nicosia em roupa de banho pra mulher ficar sem fala – Reiko quase perdeu a concentração de tanto rir, mas logo se recompôs: - Todo mundo tem alguma fantasia secreta. Basta um pequeno gesto pra você ver a hipocrisia da pessoa.

   - Dizem que quem mais fala é geralmente quem tem mais a esconder. Isso se aplica para ambos os lados – Seven disse um bocado sério, mas a imagem, ainda desconhecida para ele, de Delia Nicosia naquelas cenas descritas o deixou com intensos arrepios. Sacudiu a cabeça querendo livrar-se daquela sensação. Ele tinha uma namorada que o amava e o queria!

   - Perdão por perguntar, mas aqui todos falam tanto assim? A senhora sabe muito – Anne riu.

   - Os ricos por aqui não tem muito que fazer além de trabalhar, isso quando o fazem, e encher o pandulho de dinheiro e gastar igual água. Quando aparecem vizinhos como esses então, o que só aconteceu uma vez há uns dez anos, a falação é igual uma laranja: espremem até a última gota de suco – respondeu a modista igualmente rindo.

   - E eles não têm criados? A senhora mencionou que ela regou as plantas e ele estendeu roupas – Dan estranhou ao ouvir aquilo.

   - Quando falei com ela em razão da encomenda dos trajes dela e do marido e depois os seus, ela comentou comigo que há alguns anos eles eram um casal de classe média. Ela, dona de casa, ele violoncelista em uma orquestra filarmônica. Portanto, eles não tinham exatamente como manter uma empregada. E preferiram continuar sem esse hábito. Francamente, acho a atitude deles muito boa. A maior parte desses ricaços não serve sequer um copo d’água para si – Reiko respondeu sem muita preocupação.

   - E como foi que eles ficaram tão ricos? – Anne olhou com estranheza.

   - Pelo que eu ouvi, o Nicosia herdou a empresa de um primo distante que morreu sem deixar filhos e cuja única família conhecida era o Constantino Nicosia. Os detalhes disso eu não tenho. Ouvi dizer, porém, que antes desse golpe de sorte ele estava internado no manicômio depois de uma história meio estranha da qual eu não sei muita coisa exceto que a internação e o tratamento tiveram final feliz pros dois, que hoje vivem uma rotina bem... como eu digo? Bastante feliz – ela ria ao terminar de falar.

   - A senhora é uma fonte de informações muito interessante. Espero que tudo isso nos ajude a resolver o caso do senhor Ichimonji ou forneça alguma pista que nos leve ao assassino – disse Dan refletindo sobre todo o ouvido.

   - Passe algumas horas aguentando toda a sorte de gente rica e/ou excêntrica pra você ver. De onde eu tirei isso, tenho bem mais, mas não é relacionado com o seu caso de homicídio – a costureira sorriu com a sensação de ter cumprido algum dever que anteriormente parecia não ter.

    A conversa seguiu com amenidades até o momento em que Reiko finalmente terminou a arrumação do vestido de Anne. O casal experimentou as roupas afinal. Sorriram ao perceber que finalmente tinham ficado perfeitas. Como Delia Nicosia tinha pagado o extra de uma possível arrumação, o alien e a oficial não precisaram pagar qualquer valor. Despediram-se da modista de óculos com sorrisos. Voltaram ao hotel com a intenção de preparar-se para aquela noite.

    Estavam dispostos a usar aquela festa para descobrir possíveis mentiras e todas as verdades. Os dois, no entanto, ganhariam bem mais que isso.

* - Constantino Nicosia:









**:


     









   No próximo episódio de Corações Indomáveis: Dan e Anne comparecem à festa oferecida por Constantino e sua mulher, Delia. UltraSeven, porém, inesperadamente se vê em um inacreditável dilema: ama Anne, mas vê-se desejando a belíssima Delia Nicosia, que tem grande necessidade de mostrar sua gratidão pelo heroísmo dele.

Um comentário:

  1. A história está cada vez mais envolvente! Nem falo tanto da história da liberação sexual porque acho que já é um toque mais pessoal, mas o seu estilo transparece na leitura. Muito bom! ^^

    PS: E quanto à nossa história em conjunto? Já tem um plano pra eu fazer minha parte? Desculpe se estou enchendo o saco com isso, mas é que eu não quero acabar criando uma inconsistência na sua história por displicência minha (ou mesmo se não estou, mas é porque não gosto de parecer impertinente mesmo xD).

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