domingo, 17 de abril de 2016

Corações Indomáveis (Ultraseven Fanfic) - 9: A solução final?


Fala, gente linda do Planet Satsus, novamente é a Lady Trotsky com mais um episódio da fanfic "Corações Indomáveis", esperando francamente que apreciem

No episódio anterior de Corações Indomáveis: Ainda ajudando a Interpol na missão de desbaratar uma quadrilha de tráfico humano, Amagi depara-se com uma antiga amiga e esse reencontro lhe reservou grande surpresa. Algo que o faz repensar muito acerca de sua vida.


    Parte do dia havia se passado entre troca de informações enquanto esperavam Taira Minamoto recuperar-se da ressaca sofrida pela bebedeira da noite anterior. A conversa de pelo menos algumas horas mostrou que a investigação havia dado excelentes frutos. Apesar de eles pensarem que o depoimento do agora prisioneiro daria uma luz bem maior a algumas das coisas sabidas até então...

   - Baseado em tudo o que sabemos, posso finalmente contatar a polícia francesa e a Interpol para que eles possam dar a ordem de prisão à Helga Steiner. E assim, Jacques Peridot fica oficialmente livre de pelo menos duas das acusações – disse Podestá observando alguns papéis e dando leves olhadelas para alguém na mesa de comunicação.

   - Essa parte terá de ser melhor elaborada, pois ainda temos que levar em conta as provas juntadas pelo senhor Villechaize. Além do mais, ainda temos de elaborar uma missão de resgate para podermos salvar as vítimas aprisionadas. Só que para ser completo, precisaremos do depoimento do senhor Minamoto e dos outros que as polícias locais forem detendo – disse Kiriyama sério para depois dizer: - O meu único medo é se essa tal Regine descobrir sobre os infiltrados que pusemos no bar duas noites antes. Foi muito impulsivo da parte do Dan usar os poderes dele daquela forma.

   - Ele não teve escolha. Ou fazia isso ou ele e Amagi estariam seriamente encrencados – respondeu o agente com seriedade.

   - No nosso caso, ela não pareceu suspeitar. E a senhorita Naoru não parece estar envolvida com eles por querer. Confesso: me deu até alguma pena dela quando a ouvi conversar com o dono do bar – disse Maricruz pensativa e até mesmo triste.

   - Pode elaborar melhor? – perguntou o capitão.

   - Pelo que eu entendi, a esposa do dono do bar está no hospital se tratando de uma doença séria dos pulmões, só que o hospital custa caro por ter o único tratamento que realmente surte efeito no caso dela. A senhorita Naoru considera os dois como os segundos pais dela e ela realmente queria ajudar a senhora, por isso acabou se metendo nisso junto com o dono do bar, o senhor Ishizaki – respondeu a mexicana.

   - O problema, senhorita Tejada, é que quando se você se mete com criminosos desse tipo, dificilmente você escapa. Geralmente acaba em cadeia ou morte. É raro alguém escapar disso com danos mínimos. Ou ileso – disse Podestá sério.

   - O senhor fala como se tivesse vivido na pele isso – Caroline cruzou os braços.

   - Experimente nascer na pior parte da Cidade do México e passar metade da vida cercado dos piores criminosos com uma mãe viciada em drogas e um pai que só apareceu quando você já estava quase adulto. Pode-se dizer que minha vida nunca foi a de um príncipe de contos infantis – Podestá suspirou cansado.

   - Entretanto, tal qual a Gata Borralheira, você teve uma fada-madrinha – disse Dan algo divertido embora se comovesse com a história do agente.

   - Sim, na forma de uma tia que me criou depois que minha mãe morreu de uma overdose acidental – o agente via-se com um misto de sentimentos ao dizer aquilo.

   - Você... a odeia? – Dan perguntou incerto.

   - Não a odeio, mas queria que ela tivesse pensado melhor no rumo da própria vida. É difícil ver uma pessoa que você ama no fundo do poço pelo simples fato de não ter sabido escolher. Ou pior, de não ter tido podido realmente escolher o que queria. Minha mãe queria ser artista, mas a vovó a fez se casar quando era jovem demais. No México, quando você é pobre, sendo mulher, tenta arrumar um bom casamento e com sorte, o marido deixa trabalhar. Isso se você não contar as muitas vezes em que o relacionamento é abusivo. Ou, se você é homem, trabalha como um burro de carga por um salário de fome ou ambos podem tentar a sorte no mundo artístico e correr o risco de acabar ainda pior. E o meu pai foi embora pouco antes que eu fizesse um ano alegando querer nos dar uma vida melhor. E bem, ele só apareceu anos depois, quando eu estava quase adulto. Eu perdoei, mas não quis nenhuma relação com ele ou meus irmãos. Nunca me trouxeram nada de positivo ou negativo. Sempre fui indiferente – Alejandro respirou fundo.

   - Família é só uma. Acho que você deveria tentar se aproximar antes que acabe perpetuamente arrependido. Eu sei, de certa forma, como você se sente. Perdi meus pais quando eu era muito pequeno e não tive ninguém além da minha mãe adotiva e da minha irmãzinha Pixie. Elas sempre foram toda a minha família. Seriamente, você deveria tentar aproximação com seu pai e irmãos. Por pior que tenha sido, sempre há uma maneira de resolver as coisas – Dan disse com sincera vontade de ajudar.

    Alejandro nada disse. Compreendia Dan, mas francamente, não tinha vontade alguma de ter qualquer aproximação. Sempre estivera sozinho, por que agora iria querer tanta gente junto com ele? A solidão não era tão ruim afinal. Moroboshi mais cedo ou mais tarde iria aprender que às vezes era melhor ficar sozinho que mal acompanhado. Porque a maioria das pessoas valia pouco ou nada, quase sempre se aproximando porque queriam algo.

   - No fim, ele tem razão, senhor Podestá. Pode-se dizer que tive uma história parecida com a sua, mas não deixei que ela me impedisse de me aproximar dos meus entes familiares. Embora eu admita que a mãe dos meus irmãos não exatamente me aceita porque sou “uma bastarda”, nas palavras dela – Ametista Mendonça delicadamente virou sua cadeira para onde a conversa ocorria.

    Os presentes a olharam surpresos. Nunca tinham pensado que a história dela fosse tão complicada. Só sabiam que ela tinha sofrido sério preconceito por ter nascido na ainda colônia portuguesa de Moçambique.

   - Eu suponho que seu pai foi mais presente que o meu – Alejandro olhou-a com uma “face de pôquer”.

   - Apesar de tudo, sim. A única coisa de que ele não gostou foi quando resolvi, ao invés de me casar, entrar para a Força de Defesa. Todas as minhas irmãs se casaram logo que tiveram idade adequada para tal. Eu era a única mulher “de colônia” no meio de um grupo de portugueses ditos legítimos – disse ela algo entristecida, mas sentindo-se vitoriosa.

   - Você se considera vitoriosa porque está aqui, mas a senhorita ainda tem uma postura bem retrógrada no que diz respeito a certas coisas. Aquele dia na festa você claramente censurou aquela moça que veio com o ruivo fantasiado de “Pablo Picasso” – disse Myra séria.

   - Bem, senhorita Willows, tenho algumas opiniões consideradas “retrógradas”, mas por motivos fortes. Especialmente por causa da história de minha mãe. Ela se apaixonou pela pessoa errada e como dizem algumas meninas hoje, “deixou-se levar”. Nasci de um relacionamento não oficializado e passei metade da vida sofrendo as consequências disso. E a minha mãe ainda hoje as sofre. Portugal não é um país fácil de se viver e mudar isso não é tão simples quanto parece. Sobre a tal Olga, eu apenas não gostei. Algo errado com isso? – a outra cruzou os braços enfastiada.

   - Você pode não gostar do que quiser, mas insultar de “vulgar” é entrar no nível do preconceito. Não é vulgar usar um maiô de oncinha em uma festa à fantasia, vulgar é não ter caráter – respondeu a ruiva ríspida.

   - Myra, Ametista, vamos parar com a discussão. Temos coisas mais importantes a fazer no momento – disse Dan em tom apaziguador.

    As duas se olharam silenciosamente furiosas. Nada disseram por respeito a Moroboshi, mas ainda tinham palavras entaladas nas gargantas. Inesperadamente, Amagi entrou. Tinha ido dormir meia hora após chegar e desde então, tido considerável descanso. Sentou-se: - Acho que vocês sabem que... Taira Minamoto está preso. O plano proposto pelo meu companheiro de missão Gibraltar Ibañéz foi um inesperado sucesso.

   - Estou muito feliz por tudo ter dado certo, porém, há uma coisa que eu preciso te perguntar: você e aquela moça se conhecem? – Kiriyama olhou-o sério.

   - Francine Chihiro Tarumi foi minha colega de classe quando estávamos na escola média. Fomos amigos muito próximos até ela se mudar para a Europa com os pais aos catorze anos. Trocamos cartas até a correspondência parar a alguns anos. A reencontrei no “Venus in Furs” na noite anterior e passamos a noite botando a conversa em dia – Amagi sorriu.

    Myra riu discretamente, tendo quase certeza de que ele mentia. Até parecia que um homem passaria toda a noite conversando. Se bem que, no caso do estrategista, era bem possível. Maricruz, por sua vez, segurou-se para não abrir a boca e dizer que na verdade, ele estivera com ela na cama. Duvidava que Amagi não a tivesse procurado para satisfazer seu desejo carnal. Reconhecera o cabelo loiro acastanhado dela. Por mais diferente que fosse o modo de prender usado, a jovem reconhecera a performer pornô daquele palco nojento. E dificilmente haveria outra com aqueles quadris de parideira! A mexicana, porém, contivera-se em respeito aos ouvidos dos outros, pois ninguém tinha nada a ver com as decisões pessoais alheias. Entretanto, era difícil não ficar furiosa com aquela mulher e com ele, dado o que Furuhashi tinha desabafado no volante enquanto voltavam.

   Caroline, por sua vez, não censurava tanto Francine, mas dela não gostava. A verdade era que ela própria tinha tido um problema parecido ao de Shigeru. No seu caso, porém, tinha sido o então noivo que dormia com a mulher dizia ser sua melhor amiga. Estava perto de começar os preparativos do casamento quando descobriu a verdade. Razão pela qual tinha pedido para ser enviada ao Japão pela Defesa Canadense. Alegava ser a mais preparada para tal coisa e isso fora aceito. Não podia continuar em Vancouver depois de tudo o que havia passado. Tinha vindo com o intuito de construir uma nova vida. Ela, porém, tinha se deparado com outra questão do coração: estava apaixonada pelo oficial americano Vidal, mas ele nada queria de sério com ela ou qualquer outra que fosse. Considerava-se um solteirão convicto. Suspirou um bocado furiosa, pois sabia o quão atraído ele era por Anne, a namorada de Dan.

   - Certo, mas, você está convicto de que Taira Minamoto possui as informações das quais realmente precisamos? – perguntou o capitão concentrado.

   - Levando em consideração que ele é membro de uma quadrilha que age em meio mundo e que parte das traficadas são trazidas para cá, não duvido. Além do mais, esse diário que você vê em minhas mãos pode nos dar muito mais informações – respondeu Musashibo para entendimento dos outros, que haviam estranhado aquele livro caprichosamente enfeitado nas mãos dele.

   - Podemos vê-lo? – Podestá perguntou cordial.

   - Essa era minha intenção – respondeu o estrategista dando o diário nas mãos de Kiriyama.

    A leitura do diário durou longo tempo. Por fim, Alejandro olhou estupefato: - Aquela sua amiga te deu isso?!

   - Sim. A melhor amiga dela foi assassinada antes que pudesse revelar tudo, mas tinha deixado esse registro caso acabasse morta. Bem, o que você viu aí foi o modo como eles agem e o que eles fazem com as mulheres quando elas não servem mais – Amagi seriamente abalou-se.

   - Essa Regine Redfield é pior do que eu pensava – o capitão dizia agoniado.

   - A pior parte das missões é quando sabemos algo que não acaba bem – Podestá pôs a mão no rosto suspirando.

   - O que eu simplesmente não posso entender é o que leva essa... mulher... a agir desse modo! O que tá escrito nesse diário parece roteiro de terror gore americano! – Myra horrorizou-se.

   - Sou totalmente favorável a matar esse monstro – disse Ilsa enfurecida. Até então ela acompanhava tudo no mais absoluto silêncio.

   - Não! – Dan reagiu violentamente à menção de assassinato, mas logo se acalmou: - O dever do Esquadrão Ultra e da Interpol é levar os criminosos à justiça, não matá-los.

   - Olha, Moroboshi, considerando o que tá nesse diário, eu seriamente quero concordar com a oficial Weinmann. E além do mais, nós estamos lidando com uma pessoa que tem as costas mais quentes que o inferno. Você viu quanta gente bem importante tá escrita nisso aqui? Qualquer um deles poderia colocar todos nós no bolso! – Podestá quase gritou. Odiava ter evidências e elas inesperadamente se voltarem contra ele.

   - Prender a Regine não resolveria mesmo? – perguntou Dan percebendo a certeza convicta nos olhos dele e de Ilsa.

   - Se a prendermos, ela pode causar um grande escândalo revelando todos os podres dessa gente. E o que esses malditos menos querem é ter o nome deles envolvido em falatório, especialmente se for em um processo policial. Te garanto que eles fazem qualquer negócio para manterem a reputação ilibada, incluindo nos botar contra a parede. E provavelmente nos obrigar a destruir essas evidências sob ameaça de acabar com o Ultra Keibi-Tai. Pois o que menos importa para eles são as vidas dessas traficadas ou se isso é crime. E a Regine sabe disso tão bem quanto nós aqui – disse Ilsa séria e por fim completando: - Por isso sou favorável a eliminar não só ela, mas todos eles.

   - Oficial Weinmann, nós somos um esquadrão de defesa mundial, não um grupo de assassinos – Kiriyama olhou-a extremamente sério.

   - Tenho contatos que me devem favores e posso utilizá-los. É pela resolução completa desse caso e em nome das vítimas dessa maldade horrenda – disse a alemã ocidental com algum triunfo. Kiriyama viu-se tentado a aceitar aquilo, dado que Ilsa, por mais extrema que fosse, tinha razão em suas palavras. Kaoru não podia permitir que seu trabalho de toda uma vida fosse destruído por gente sem um pingo de caráter. Via-se capaz de qualquer coisa para manter o Ultra Keibi-Tai de pé.

   - Capitão, você não pretende aceitar isso, pretende?! – Dan olhou com o mais absoluto horror. Exclamou: - Por favor, você não pode! Matar é errado!

   - Engraçado que você fez isso com a maioria dos monstros que invadiu o planeta sem nem ao menos hesitar. E agora você acha a proposta dela errada quando essa gente é ainda mais errada? Qual é o seu problema?! – exclamou Alejandro achando que Dan decididamente não batia bem da cabeça.

   - O meu “problema” é que essas pessoas, por piores que sejam, tem entes queridos que gostam delas. E essas pessoas vão sofrer muito com essa perda. Você mesmo já sofreu isso e eu também. Você iria gostar que alguém matasse uma pessoa que você gosta apenas porque ela está envolvida com gente errada?! – exclamou o alien quase chorando, mas depois se recompondo: - E quem garante que esses estão metidos com Regine Redfield por que realmente querem? Será que não estamos lidando com uma chantagista profissional?

    Podestá abalou-se com aquele questionamento. Apesar de odiar criminosos, a verdade era que a perda doía em qualquer pessoa. Por piores que muitos deles fossem, eram tidos em alta consideração por muita gente pelos mais variados motivos. “Extraterreno bastardo de una mierda”, pensou Alejandro achando que ele talvez tivesse razão. De fato, muitos o odiavam por terem perdido parentes e amigos para a mira mortal dele. A quantia de marcas de balas e facadas pelo corpo mostrava isso muito bem obrigada.

    Ilsa, porém, não pareceu abalar-se: - Bem, não é como se as famílias das mulheres mortas não fossem chorar por elas, não é? Às vezes, Dan, torna-se necessário tomar decisões que nem sempre irão agradar a todos, mas que são por um bem maior.

   - Um bem maior à custa de perdas de vidas? Ilsa, você percebe o quão anacrônica é a sua lógica? Você mesma já sofreu com isso na época da Segunda Grande Guerra. Retribuir violência com mais disso só vai gerar um ciclo infinito de desgraça! – exclamou Moroboshi.

   - O que aconteceu comigo e outros milhares não foi por um “bem maior” e sim poder e subjugação das pessoas! Aquele austríaco podre desgraçado queria montar uma raça superior quando essa dita superioridade sequer existe, dado o que vivemos em 1968! Por pouco, metade do planeta não foi varrido! E você salvou as nossas vidas mesmo sabendo que seus compatriotas não concordavam! Você arriscou a sua reputação pelo bem de pessoas que sequer sabem quem você é. Parte dessas mesmas pessoas agora está metida com essa vagabunda! – o tom de voz da alemã ocidental era quase um berro.

   - Ainda sim nunca vou concordar com essa solução! Capitão, se você está disposto a isso, peço agora a minha exoneração do Ultra Keibi-Tai! Não posso conceber que as pessoas que conheço e amo concordem com um absurdo desses! – Dan estava a ponto de chorar.

    Kiriyama, embora estivesse disposto a qualquer coisa para manter o Esquadrão Ultra, também não queria perder um de seus melhores oficiais. Acabou por dizer: - Dan, eu já disse e repito: não somos assassinos. Somos um grupo de defesa mundial. Entendo que você não prefira chegar nesses extremos. Entenda, porém, que estamos lidando com uma quadrilha perigosa e uma líder cujos contatos são mais com o que podemos lidar. No entanto, acho que posso fazer algo sobre isso. Dado o que você disse sobre uma provável chantagem, vamos fazer o seguinte: faremos uma aliança com a Interpol e investigaremos isso a fundo. Concorda, agente Podestá?

   - Esse diário finalmente nos dá uma chance de poder colocar muitos desses contra a parede em casos que há algum tempo o meu superior vem quebrando a cabeça. E acabei de ter uma ideia: eu vou me responsabilizar por isso sozinho. Vocês vão me ajudar, mas é necessário que ninguém além da gente saiba disso. Vocês oficialmente não me conhecem e não tem ideia de nada disso, ‘cierto’? – Alejandro olhou a todos muito sério.

   - Não se esqueceram de Taira Minamoto? – Amagi manifestou-se após manter-se calado durante a discussão. Ela era mesmo tenebrosa, pensou ele. Todos os outros não sabiam o que dizer depois de conhecer uma face mais macabra de Ilsa Weinmann.

   - Eu suponho que isso tudo ele sabe, mas ainda tem bem mais. E isso com o diário podem nos dar uma ideia do que nos realmente vamos fazer para desmontar essa quadrilha. Talvez, apenas talvez, o Dan possa ter razão, mas isso nós temos que descobrir. Saltar para conclusões pode não ser uma boa ideia – Kiriyama logo percebeu que as consequências daquele plano de assassinato poderiam futuramente acabar sendo as piores.

    Ilsa, por mais que adorasse Dan, não estava disposta a acreditar em “chantagem” tão facilmente. Alguns até podiam estar sendo chantageados, mas ela duvidava muito que fossem todos. Suas vivências em um campo de concentração e depois na Defesa Alemã Ocidental tinham lhe ensinado muito sobre as pessoas e suas motivações. Era especializada em missões que requeriam alguém hábil na arte de seduzir, torturar e às vezes matar. Já perdera as contas de quantos desgraçados havia ferido gravemente com o intuito de descobrir verdades que por bem não viriam à tona. Seus favoritos geralmente os remanescentes do nazismo, os quais muitas vezes ela deixava em estado irreversível de saúde. Tal hábito tinha lhe valido o apelido de “A Mariposa Venenosa”. Bela, porém perigosa.

    Podestá, sabendo que Amagi conhecia Francine, perguntou: - Agora que li esse diário, quero saber: qual é a profissão da Francine?

   - Veterinária. Ela inclusive tem uma clínica aqui em Tóquio. Não faz muito tempo que existe – respondeu ele tranquilamente.

   - Isso é o que ela faz de dia, porque à noite ela faz outra coisa. O autógrafo de Frances Dupont, segundo uma análise caligráfica que um colega meu fez na Espanha, combina com a letra da sua amiga que estava em uma receita médica feita para um gato. Caso pergunte, a melhor amiga da senhorita Tarumi foi assassinada em Madri. E o autógrafo de Frances Dupont foi encontrado junto com essa receita no bolso do casaco dela, pois a vítima estava indo levá-lo a um fã que não pôde buscá-lo na ocasião. O que me faz chegar à conclusão de que as duas são a mesma pessoa. Por sorte, eu e meu colega deduzimos com acerto que ela não tinha nada com isso. E por isso achamos melhor não mencionar isso no fechamento – disse ele para o total espanto de todos os presentes.

   - O que isso tem a ver com esse caso? – Amagi encarou-o seriamente. Os outros presentes, por sua vez, olhavam horrorizados. Furuhashi estava mais nervoso que os outros.

   - A cada um mês após uma turnê de Frances Dupont em pelo menos dez países, nós recebíamos denúncias anônimas que nos levaram a cativeiros onde várias mulheres encontravam-se presas e exploradas. Seriamente desconfio que sua amiga e a vítima morta na Espanha investigavam por conta própria essa quadrilha, porém, as denúncias pararam após a morte de Monella Parisi, ocorrida há pelo menos dezoito meses. Tenho que admitir, Francine é mais corajosa do que eu supunha. Ela não apenas ajudou indiretamente a polícia várias vezes como ainda se manteve incógnita. Admiro a coragem dela, por todos os lados. Se não fosse pela investigação da senhorita Parisi, nunca teríamos chegado até aqui. Eu só me pergunto, porém, porque Francine Tarumi não entregou esse diário antes – Podestá não parecia julgá-la. Os outros, por sua vez, não sabiam o que dizer ou pensar.

   - Ela me falou que há muitos corruptos no meio das autoridades. Certamente estava com medo de acabar morta como a amiga dela. Você entende, não é? – Amagi viu-se muito sério.

   - Infelizmente sei como é. Eu mesmo tive que lidar com muita corrupção durante a minha carreira toda. Nunca fica mais fácil. E menos ainda você entende qual é o problema dessa gente, sabe? – Alejandro parecia descrente.

   - Como Irina me disse esses dias, o egoísmo é a causa desses e outros tantos problemas – respondeu Dan.

   - Disso é impossível ter dúvida – o agente suspirou e disse em seguida: - Nós temos que, antes de qualquer coisa, traçar um plano para investigar todas essas pessoas. O problema é que vamos precisar de uma equipe...

    Moroboshi o interrompeu: - Posso usar meus poderes para me transportar e investigar. Tudo o que preciso é de uma autorização do capitão Kiriyama. Vou levar pelo menos uma semana nessa tarefa.

   - Tem certeza de que isso é seguro? – Podestá ficou tão surpreso quanto os outros com tal proposta.

   - Quanto mais tempo perdermos, mais risco a vida dessas vítimas, da senhorita Naoru e da família Ishizaki vai correr perigo. Enquanto isso, vocês tem de descobrir onde fica o esconderijo aqui no Japão. Minamoto pode fornecer as informações quando for interrogado. E vocês vão usá-las para dar um fim em parte desse absurdo, mas, por favor, tenham cuidado. Monella Parisi não morreu em vão – Dan olhou todos na sala com determinação e crença.

  - Tem minha autorização, Dan. Mas, no primeiro sinal de problema, volte imediatamente para a base, entendeu? – Kaoru queria garantir a total segurança de seu oficial.

   - Tem minha palavra, capitão – o alien bateu continência em sinal de absoluto respeito.

    Embora tudo estivesse certo, Ilsa achou definitivamente que não estava. Pensou que era melhor esperar e ver como Dan se sairia em sua missão solo. Ele era competente e possuía várias décadas a mais de experiência, por isso achou que deveria confiar nele. Ainda assim, ela deixaria tudo pronto para um possível fracasso. Pois Moroboshi talvez não soubesse totalmente que a humanidade tinha uma característica muito forte: a falta de limites.

...

   - Que coisa, Alex! Poxa, mas esse seu trabalho consegue ser uma merda de vez em quando! – alguém reclamava no telefone.

   - Nem vem, Pierre. Você devia estar ciente de que algumas coisas fogem ao meu controle. Infelizmente não posso ir hoje. O Dan nos deixou com uma senhora tarefa. E com franqueza, eu quero mesmo ajudar a cumprir isso. Só não te falo porque isso é sigiloso – disse Vidal com certa tristeza, pois não ia poder beber com o amigo.

   - Francamente, eu sou seu amigo, caramba. Isso é tão secreto mesmo? – o pintor espantou-se.

   - Se eu te contasse, você acabaria no programa de proteção à testemunha. Falando sério – Alex replicou com tal seriedade que o irlandês quase desligou o telefone. Não suportava a ideia de ter policiais vigiando-o 24 horas por dia...

   - Credo, eu até fiquei com medo agora.

   - Nós vamos ter outros dias pra nos encontrarmos, ok? Agora preciso desligar antes que a fila atrás de mim me linche por eu estar demorando demais. Tchau, até mais – disse Alex.

   - Até mais, amigo – Pierre desligou logo após falar. Olga surgiu do corredor, já pronta para ir ao trabalho. O artista surpreendeu-se com o “look” dela naquela noite: - Tem festa lá hoje? Você tá gatona.

   - O bar vai estar todo reservado para uma festa particular que uns rapazes vão fazer pelo aniversário de um deles. A dona Mei disse que eles são gente bem refinada, por isso escolhi esse vestido. Um dos meus antigos que eu consertei – respondeu ela sorrindo.

   - Se você não chamar a atenção de pelo menos metade dos convidados, eles são cegos ou burros – riu ele.

   - Estou lá para trabalhar, não chamar atenção – respondeu ela rindo algo.

   - Vai lá. Não te quero recebendo bronca por atraso – disse ele indo abraçá-la para se despedir.

    Olga retribuiu ainda um tanto receosa, pois não era comum os japoneses se despedirem de forma tão calorosa:

   - Obrigada. Fique bem.

    Estava cada vez mais difícil conviver com Pierre. Não por ser ruim, mas porque definitivamente não sabia até quando conseguiria reprimir o desejo que vinha sentindo por ele. Só não tinha mostrado, ainda, porque todas as vezes os preceitos nos quais fora criada vinham com força. Simplesmente travava quando cogitava a possibilidade. Não conseguia simplesmente sair de seu quarto e ir ao dele pedir que a jogasse na cama e tirasse sua virgindade. De preferência fazendo com ela tudo o que ele fazia com as outras. Era difícil tomar uma atitude quando tantas coisas contra vinham em sua cabeça dizendo que era errado. Bufou enquanto caminhava para o trabalho. “Que diabos!”, Olga amaldiçoou-se por tamanha falta de iniciativa.

    No entanto, ao mesmo tempo em que queria ir para a cama com Pierre, pensava ainda no ex-noivo. Depois daquele dia no restaurante, Takeo ia e vinha de sua mente com mais frequência do que ela aceitava. Por que era tão difícil tirá-lo da lembrança? Era ela tão masoquista assim para continuar com tal absurdo? Por mais difícil que fosse, entretanto, tinham sido sete anos de uma história que na verdade havia começado ainda na infância. Entre brincadeiras, folguedos, trabalhos escolares e lições de casa. Uma amizade forte e sincera que tinha se deteriorado à medida que as obrigações impostas pelas famílias tinham se colocado no caminho deles. Especialmente as ambições do então delegado Mitsuhiro Gorisaki. E o desejo da mãe de Takeo de vê-lo casado com uma moça legitimamente japonesa após ver o filho namorar várias “gaijins sujas”, na definição dela.

    Chegou ao bar transtornada de tristeza. Cumprimentou as colegas de forma mecânica e fez o mesmo com Mei. A dona imediatamente percebeu que a moça não estava nada bem. Disse às outras que continuassem as tarefas porque ela ia conversar com Olga. As garçonetes logo perceberam o motivo daquele transtorno da colega. Suspiraram lamentando o tamanho azar da pobre moça. Se apaixonar podia ser uma merda, pensavam elas.

   - Olga? – Mei chegou ao vestiário onde as moças colocavam os uniformes.

   - Oi, dona Mei. Como está? – disse ela tentando disfarçar a tristeza.

   - Da minha parte, estou bem. Mas preocupada com você, querida – a proprietária olhou-a com carinho.

   - Não é nada – respondeu a jovem não querendo falar qualquer coisa a mais.

   - É mesmo? Pois acho que você não está bem. Aliás, já tem alguns dias que você não vem estando alegre como achei que estava depois daquele banho de loja. Aconteceu algo? – Mei aproximou-se querendo realmente ajudá-la.

    Olga nada queria dizer, mas, talvez, alguém mais velha e experiente poderia dar-lhe um conselho. Olhou-a: - A senhora já tentou fazer algo, mas fracassou porque simplesmente não consegue tomar a atitude certa pra começar?

   - Já passei por isso, mas superei. Por acaso é relacionado com seu ex-noivo? – a pergunta atingiu Olga com tudo.

   - E não é ao mesmo tempo. Como eu explico...? – ela sentou-se e respirou fundo.

   - Simplesmente fale. Guardar isso só vai te fazer mal – disse Mei sentando-se com ela.

    Um longo e triste desabafo se deu. Lágrimas borraram a maquiagem bem feita. Ela contou desde o começo de sua amizade com Takeo até o seu desejo inesperado por ir à cama com Pierre. Por fim, disse: - No entanto, eu sei que posso acabar saindo disso muito ferida. Por isso não sei o que fazer!

   - Responda uma coisa: quantas vezes você já caiu um tombo enquanto brincava? – a dona do bar observou-a.

   - Muitas – apesar de ter respondido, Olga seriamente estranhou o questionamento.

   - Bem, é assim que a vida funciona. Foi como uma amiga minha do Brasil, hoje uma amável velhinha, que eu conheci enquanto morei lá, disse: se você anda, pode tropeçar. Se você comer, pode engasgar. Se cavalgar, pode cair do cavalo. Se nada, pode se afogar. Em tudo, há um risco, mesmo o menor deles. Cabe a você decidir se isso vale a pena ou não. No entanto, há uma beleza nisso: é você e apenas você que tem esse poder de decisão. Ninguém, nem mesmo eu, pode dizer qualquer coisa. Posso te aconselhar, porém, a decisão final é sua e apenas sua. Não depende de ninguém mais, ainda que muitos digam isso – Mei disse de forma categórica.

   - Mas você acha que... eu deveria... ficar com ele? – por melhores que fossem as palavras, Olga estava indecisa.

   - Se você o deseja, vai fundo! Vai adiantar você ficar remoendo os preceitos nos quais você foi criada? Olga, você não está em Shiroishi com sua família. Aqui, você é uma mulher livre e independente que não precisa dar satisfações a ninguém. E mesmo que você estivesse, olha a sua idade e o tempo em que vivemos. Nem mesmo o seu pai tem direito de botar rédeas. Você não é um animal de tração, é um ser humano! – Mei disse em tom de urgência.

    Mei tinha razão, pensou Olga. Na capital, era ela por si mesma. O problema, porém, é que a jovem não sabia por onde começar. Afinal, nunca tinha pensado em fazer tal coisa. Perguntou, mesmo insegura: - Por onde eu deveria iniciar, então?

   - A primeira coisa nesse caso é você conhecer bem o seu corpo. Saber quais os pontos onde você sente mais prazer. Por mais que os homens tenham duas bolas, nenhuma delas é de cristal – respondeu a mulher aos risos ao que Olga avermelhou-se e riu: - Dona Mei!

   - Larga de ser acanhada, moça. É assim mesmo que funciona. Ou você acha que alguém realmente adivinha isso com 100% de acerto? – ela olhou a jovem com espanto.

   - O Pierre é tão experiente nisso que eu não duvido – respondeu Olga explicando o acontecido após voltar de seu reencontro oficial com o antigo amigo Soga. De ter revisto Takeo naquela ocasião, motivo pelo qual andava triste. E tomou coragem para contar sobre o acontecido entre ela e Shinnosuke naquela época.

   - Entendo – riu a outra levemente para depois dizer: - Mas, por mais experiência que ele tenha, todas nós somos diferentes, Olga. Não é porque você sente prazer com uma parte do corpo que outros vão ter o mesmo tipo de sensação. Cada mulher é uma mulher e cada homem é um homem. Claro que o parceiro pode te ajudar nisso, mas, é só você que pode consentir ou não qualquer coisa, até mesmo durante o sexo.

   - Mas... isso... não ocorre do mesmo modo quando se trata da anatomia íntima? – Olga via-se sem saber o que pensar. E estupefata com a desenvoltura dela com aquele assunto.

   - Sim, mas para que isso seja possível, as preliminares são importantes. E por isso eu me referi a pontos “eróticos” mais fortes. E tem o fato de que os homens sentem prazer com muito mais facilidade que nós se você parar e pensar – respondeu a dona do bar usando sua experiência de vida.

   - A senhora já foi casada? – Olga inesperadamente ficou curiosa.

   - Quem disse que precisa casar pra ter prazer? – respondeu Mei certeira.

   - Quer dizer...? A senhora teve muitos homens? – a jovem olhou-a com espanto misturado a admiração.

   - Fui casada e dessa união, tive meus três filhos. Fui deixada e os criei sozinha. No meio disso, dormi na cama de vários e levei vários na minha. Não por necessidade, mas porque queria o prazer puro e simples. Fazer sexo porque gosta não te torna vagabunda e/ou prostituta. Você só é uma verdadeira “vadia” se está prejudicando alguém. Pode apostar que há muitas dessas disfarçadas de damas distintas. E prostitutas só existem porque há homens que pagam para ter prazer mesmo tendo uma mulher em casa. Fora isso, não há nada errado em estar com quem você quiser. Nossa vida é somente da nossa conta. E outros têm de aprender a não se meter onde não foram convidados. Principalmente, muitos precisam tomar coragem para ter em mãos as rédeas da própria vida. E assim não perpetuarem tanto absurdo ainda existente – respondeu ela com firmeza de quem já havia vivido muito.

   - A senhora quer dizer sobre as mulheres serem criadas... para serem mães e donas de casa? – Olga suspirou ao lembrar-se da própria criação. Por mais que tivesse diploma de ciências contábeis, ela só o tinha porque o pai tinha adorado a ideia de ter todos os filhos formados na melhor universidade japonesa. Shinya era advogado e Osamu, engenheiro. Puro status no caso dela e possivelmente bancado com dinheiro sujo, dadas as incontáveis acusações sofridas por seu pai. A jovem quase chorou novamente. De repente era tudo uma confusão só.

   - Exatamente, querida. Uma infeliz realidade que muitos insistem em manter por motivos mesquinhos! E na maior parte do tempo, por má interpretação de livros religiosos e uso inadequado dos mesmos - Mei não se considerava seguidora de religião alguma, mas conhecia muita gente assim.

   - Como a senhora chegou até aqui? – Olga olhou-a.

   - Trabalhando muito, me desdobrando pra criar três meninos pequenos e sofrendo mais preconceito ainda. Pensa que foi fácil ser levada a sério quando resolvi montar um negócio de comida no meio de um bairro operário cuja maior parte dos moradores era de homens? Minha filha, se você tivesse ideia de quanta merda escutei de meio mundo, poderia escrever um livro. O meu negócio só chegou até esse bar de refinamento médio porque lutei pra conseguir isso e principalmente, não fiquei respondendo desaforo, mostrei que podia fazer. Ouvi insulto e cantada, fui assediada, sofri ameaças de yakuzas, mas não entreguei os pontos. Persisti e consegui o respeito que me foi negado a vida toda apenas por eu ser mulher. Porque respeito não se compra, se conquista. E o nosso respeito próprio é apenas nosso. Então, não deixe ninguém te tirar isso – sorriu a veterana por fim dizendo:

   - Hoje, esse bairro é uma tranquila morada de todo o tipo de gente e continua sendo meu lar e minha vida. E eu quero que esse lugar seja onde você vai construir sua nova vida e ser feliz. E mais uma coisa que essa minha amiga me disse: a coisa mais bonita que se pode dizer antes de fechar os olhos para sempre é “eu me permiti”, não “eu me reprimi”.

    Olga sentiu o coração muito mais calmo depois de ouvir tudo aquilo. Embora ainda sofresse pelo que tinha vivido há tão pouco tempo, ela agora se sentia capaz de ir ao topo do mundo...

   - Não sei como te agradecer por me ouvir. E me ajudar. Nem sei se mereço tudo isso.

   - Querida, lembre-se, pense no que você quer para si mesma. E ainda, recorde o que eu te disse: nossos erros servem para que nos tornemos pessoas melhores – Mei abraçou-a. Olga já não se importou. Queria aquele abraço.

    Aquele turno tinha sido o melhor de sua vida até então. Com a maquiagem devidamente retocada e sentindo-se mais brilhante que todas as estrelas, serviu os clientes sorrindo. As gorjetas recebidas tinham sido as maiores desde que havia começado no emprego. Nem mesmo a inesperada presença de Takeo Benkei, que era amigo do aniversariante, pôde tirar sua alegria embora ambos tivessem trocado um significativo olhar. Que ela confessou não ter ideia do que realmente significava. Todavia, não deixou que a tristeza ficasse em seu caminho. Inclusive, na hora de ir embora, após receber o ganho do dia, despediu-se alegremente das colegas e da chefe.

    Contudo, viu-se abordada pelo ex-noivo alguns metros depois do bar: - Você aqui? Trabalhando como garçonete?

   - Na verdade, sou a moça do balcão. Só sirvo mesas quando o bar está cheio demais. Não esperava que você conhecesse aquele rapaz. E muito menos que estivesse morando aqui. Como está? – respondeu ela cordialmente.

   - Estou bem. Recebi uma proposta de emprego daqui logo depois que eu e Franziska meio que fugimos pro litoral. Você sabe... – ele nunca iria gostar de abordar aquele assunto por mais raiva que ainda tivesse.

   - Bom pra você. Como está o Eiji? E ela? – Olga retirou os brincos, pois eles estavam incomodando.

   - Ambos ótimos. Emprego fixo? – Takeo não pôde deixar de ficar espantado com o atual visual da ex-noiva. Já era linda, mais bonita tinha ficado.

   - Sim. Consegui logo que cheguei. Dona Mei é uma excelente patroa. E minhas colegas são boa gente. Desculpe, mas preciso ir. Está tarde e estou cansada – respondeu Olga já andando.

   - Não vai me dizer onde mora? – ele encontrava-se ainda espantado.

   - Me dê uma boa razão – ela replicou andando mais rápido.

   - Eu... – Takeo bem que tentou, mas ainda não conseguia perdoá-la completamente por toda aquela sucessão de fatos. Ainda tinha raiva dela por todas as tramoias.

    Olga andou o mais ligeiro que pôde sem olhar para trás. Era muita ousadia dele lhe dirigir a palavra depois de tudo! Francamente, ela deveria, naquela época, ter deixado Soga desvirginá-la! Estava enojada consigo mesma por ainda pensar naquele calhorda chamado Takeo Benkei. Chegou onde morava. Respirou fundo. Pierre não precisava saber daquele reencontro e muito menos vê-la com cara triste. A partir de agora, ela seria apenas sorrisos e alegria. Entrou no apartamento com a cópia da chave dada pelo irlandês. Surpreendeu-se dele não estar em casa pintando ou esculpindo. Ele tinha saído, pois não costumava deixar a porta trancada quando estava em casa. Foi ao seu quarto e cuidadosamente guardou suas coisas. Desfez o penteado e despiu-se. Tirou a maquiagem do rosto e limpou bem a pele. Viera bem a calhar ele não estar em casa.

    Foi ao quarto dele. Pierre sempre o deixava aberto. Olhou todo o cômodo. Encontrou uma camisa dele pendurada em uma cadeira. Era a primeira vez que cheirava a roupa de um homem. O cheiro dele era gostoso, forte. Sentiu os pelos do corpo arrepiarem. Encostou o tecido na pele nua. Aspirou novamente. Mordeu o lábio inferior lembrando-se de quando o vira nu junto com aquela moça. Sorriu imaginando-se ali com ele na cama. Lembrou-se daquela época com a intenção de recordar os locais onde Soga a havia tocado e beijado. Largou a camisa quase do mesmo jeito como a havia visto. Olhou-se no espelho do quarto, totalmente nua. Deslizou as mãos pelo corpo admirando-se.

    Deitou-se na cama dele. O mesmo cheiro. Olhou para o teto antes de começar a tocar-se. As mãos apalparam os seios. Olga sentiu deliciosos arrepios. Os mamilos pronunciaram-se fortemente. Ela sorriu procurando lembrar-se mais. Esfregou os dedos delicadamente. As mãos foram para baixo. Olga teve forte arrepio quando encostou os dedos na parte íntima. Respirou fundo e continuou tocando-se. Deliciosamente gemeu. Percorreu toda a região tal qual um viajante procurando o rumo. Era uma sensação maravilhosa que até então não conhecia. Não tinha mais porque envergonhar-se de buscar prazer por conta própria. Passou um bom tempo nisso. Os dedos tinham ficado úmidos. Continuou. Foi mais fundo do que até então se permitira. Doera um pouco, pois não tinha o costume. No entanto, não era ruim. Cansou-se após algum tempo entrando e saindo. Afinal, tinha sido um turno bem cansativo no bar.

    Higienizou-se devidamente e assim foi enfim dormir o sono dos justos. Teve a certeza, ao fechar os olhos, de que finalmente começava a viver de novo. De que agora tinha uma real razão para seguir em frente: ela própria.

...

    No Esquadrão Ultra, Taira Minamoto finalmente tinha se recuperado da ressaca. E estava desesperado por estar preso. Quis recusar-se a depor, pelo menos até o capitão propor-lhe um acordo: diria tudo o que sabia da operação da quadrilha e teria a chance de poder encontrar a filha nos Estados Unidos...

   - Como o senhor sabe disso? – ele olhou incrédulo.

   - O Gibraltar te investigou logo depois de te deter. Descobriu que você já foi casado, mas que a sua mulher fugiu com a sua filha para a América e nunca te deu notícias. Porém, vou garantir que aconteça o contrário se você não me disser tudo. Apesar da sua ficha suja, a Regine Redfield é pelo menos dez vezes pior que você – disse o capitão enquanto Ilsa olhava com desconfiança.

   - O senhor acha mesmo que não sei disso? A nossa quadrilha, até pelo menos quatro anos atrás, apenas queria uma grana alta, mas depois daquela maldita conquistar nosso líder, tudo mudou. Ele morreu apenas seis meses depois e ela assumiu o comando. Com certeza foi coisa encomendada por ela. Primeira coisa que ela fez? Matou pelo menos quatro dos homens mais próximos dele de quem ela não gostava. Achou seriamente que eles tentariam se livrar dela na primeira chance. Sinceramente, eu me pergunto como foi que fiquei vivo até aqui. Acho que nasci de bunda pra lua – disse ele cruzando as mãos na mesa.

    O capitão e Ilsa seriamente desconfiaram da facilidade com que ele começou a depor. Minamoto contou sobre como Regine tinha tido a ideia de trazer mulheres de vários países com o objetivo de alimentar o mercado do sexo. E via-se não entendendo, já que ela, sendo mulher, não tinha razão para fazer tal coisa. Talvez ela tivesse algum trauma de infância que a levava a isso, já que a danada era feia feito o diabo. O cabelo quase branco e a pele de uma clareza tão desgraçada que nem no sol ela podia se expor.

   - O senhor está nos dizendo que ela é albina? – Ilsa lembrou-se da leitura do diário.

   - Sim. Todas as reuniões que eu tive com ela aqui foram à noite porque nem brincando ela pode sair de dia – respondeu ele parecendo excessivamente sincero e depois dizendo: - Confesso que tô puto por estar preso, mas francamente, tráfico humano não é algo que eu realmente goste de fazer. Com franqueza, não sei de onde ela tirou essa ideia. A gente só assentiu porque ela mostrou do que é capaz quando é contrariada.

   - Primeira vez vendo uma ocorrência tão peculiar: o criminoso que odeia o crime que comete – Kiriyama olhou-o.

   - Tem a possibilidade de ele estar mentindo, capitão – Ilsa respondeu.

   - Desculpe senhorita, mas acho difícil mentir quando estou preso em um lugar que eu sequer sei onde fica e certo de que se eu tentar escapar, vão me matar. Minha vida vale até demais pra mim – disse ele apavorado.

   - Típico de alguém que prefere ser um covarde vivo que um herói morto – a alemã riu.

   - A Regine Redfield não ama ninguém que não seja ela mesma e o filho que ninguém conhece. Francamente, não sei como diabos aquela monstra gerou uma vida. Ou como o serviço social deu uma criança pra aquela vagabunda. Se for uma criança, porque eu francamente não tenho ideia – Taira disse para o total pavor do capitão e da oficial...

   - O que mais você sabe disso? – Kiriyama via-se estupefato.

   - Já disse que não tenho ideia. Tudo o que eu sei é que ela mantém um lugar para ela e esse tal filho. Eu só não sei onde fica e sinceramente, não sou eu que quero saber. Vai Deus saber se não é um demônio feito ela – Taira tremeu.

   - Seria uma boa ideia incluir isso na investigação – Ilsa já pensava em um plano.

    Kiriyama perguntou-se se ela seria mesmo capaz de colocar aquele provável plano adiante. Espantou com a probabilidade positiva. Começava seriamente a arrepender-se de ter aceitado Ilsa Weinmann na equipe. Ela podia se tornar um problema futuramente. O Esquadrão Ultra tinha uma reputação a prezar. Se bem que, naquele momento, eles estavam ajudando o agente Podestá. E sabiam: lidar com aquela quadrilha definitivamente não era tarefa fácil.

    Taira Minamoto continuava dando seu depoimento, acrescentando detalhes que decididamente eram importantes, como as agências envolvidas no esquema e as várias pessoas nessa história. Enquanto isso ocorria, Mariana e Maricruz faziam ronda de vigia em volta da localização da sede secretas. A segunda dirigia e a primeira estava no carona. Falavam. A primeira estava triste e a segunda queria ajudá-la:

   - O que você pretende fazer sobre o Amagi?

   - Como assim?

   - Maricruz, é muito óbvio que você gosta dele. É claro que você está muito brava por conta da Francine, mas não acho que eles se amem.

   - Eu odeio admitir, mas estou furiosa não é com ela, mas com... o lado que o Amagi revelou naquela noite! Tem ideia de como eu me sinto com isso?!

   - Maricruz, todos temos um lado que não revelamos, pelo menos não para as pessoas erradas embora essas o vejam com uma brutal facilidade. Que o diga a minha vó e a história dela. Olha, eu acho que você deve é conversar com ele e ver como acontece. Ficar fazendo cara fechada pra ele não vai melhorar as coisas.

   - Por onde eu começo então?

    Mariana ia responder quando o carro inesperadamente foi envolvido pelo que parecia uma rede gigante e espessa. A oficial brasileira nada enxergava tentando continuar conduzindo. O veículo bruscamente parou e a rede sumiu como se nunca tivesse estado ali. As duas estavam cercadas de um misterioso grupo de pessoas mascaradas armadas. Eram pelo menos dez pessoas cercando o carro. Ambas não viram alternativa exceto descer. Nada perguntaram por não querer despertar uma possível fúria daqueles bandidos. Amaldiçoaram-se por não poder sacar as armas, pois não podiam lidar com tanta gente ao mesmo tempo. Foram levadas para um caminhão e lá amarradas e amordaçadas.

    Nenhuma das duas soube, pelo menos até chegarem, o que esperar. No entanto, quando viram Regine Redfield, tiveram a certeza de que as coisas inesperadamente haviam se complicado. As duas só podiam agora planejar uma forma de sair dali. Vivas.

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